Por Leila Wilm
“Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os costumes do mundo, aqueles que lhe parecessem melhor, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os seus próprios costumes, tão convencidos estão de que estes são melhores do que todos os outros”. (Heródoto, 484-424 a.C.)
Cada pedaço de chão desta Terra, desde que habitado por homens, traz sua herança cultural e segue costumes e hábitos de seus antepassados. Atos considerados estranhos para uns, inadmissíveis para outros, podem ser absolutamente normais e corriqueiros, especialmente para aqueles que os praticam.
Os primeiros “viajantes-pensadores”, ao conhecer povos diferentes entre si, já tentavam explicar disparidades comportamentais existentes entre os homens, e alguns até afirmavam que essas diferenças davam-se devido ao clima das regiões. Povos habitantes de regiões mais frias eram considerados sisudos e temperamentais, enquanto os habitantes dos trópicos seriam mais extrovertidos e vivazes.
Com o passar do tempo, e tendo-se conhecido outros povos, foram surgindo diversos parâmetros. Os homens, apesar de possuirem suas características individuais, reúnem-se em tribos, clãs e sociedades, os quais possuem características próprias, desenvolvidas pelo homem, devido à convivência, ou seja, o grupo é o que o homem é.
Criou-se uma série de teorias que rotulam e estigmatizam as raças, grupos, clãs, etc., atribuindo-lhes predicados e/ou limitações, a ponto de discriminar pessoas e povos inteiros, como afirmar que judeus são avarentos, portugueses são pouco inteligentes, brasileiros são preguiçosos e por aí afora. São marcas que, mesmo tendo sido apagadas de forma individual (nesse ou naquele sujeito que se destaca mundialmente, provando o contrário), não conseguem deixar de existir, uma vez que se estenderam de forma global.
Porém, os aspectos culturais de cada povo vão sendo mantidos, a despeito de algumas mudanças e evoluções, principalmente na área tecnológica.
Os antropólogos há muito já afirmam que as diferenças genéticas – variação no genoma humano organizada em regiões do DNA conhecidas como haplótipos, blocos de informação transmitidos de geração em geração- nada têm a ver com as diferenças culturais. Um exemplo disso é que atividades praticadas por mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra, como afirma Roque de Barros Laraia (1986). Laraia cita o estudo de Margareth Mead (1971), onde comenta que até a amamentação pode ser transferida ao homem moderno, por meio da mamadeira.
Laraia afirma ainda que um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios, mas em decorrência de uma educação diferenciada.
A discussão acerca das diferenças dos seres humanos em decorrência de sua cultura, transforma-se em um assunto amplo e repleto de teses, experiências e comprovações. Porém, é fato que as diferenças existem, independentemente de seus fatores preponderantes; e devem ser levadas em consideração em cada uma de suas particularidades.
Ao iniciar-se um atendimento na área de saúde, é rotina realizar-se a anamnese (do grego ana, trazer de novo e mnesis, memória), ou seja, uma entrevista que busca obter o maior número de informações possíveis sobre o indivíduo, buscando em sua memória detalhes de sua vida, em diversos aspectos. Em caso de tratamento médico, por exemplo, estima-se que hoje a anamnese, se bem conduzida, é responsável por 85% do diagnóstico na clínica médica, liberando 10% para o exame clínico(físico) e apenas 5% para exames laboratoriais ou complementares. A pesquisa individual busca informações não só da queixa principal do paciente e do histórico de doenças na família, como outros aspectos, inclusive acerca da história familiar, história pessoal e social.
A realização da anamnese é uma eficiente estratégia para se conhecer um indivíduo, inclusive em sua subjetividade, com a ajuda de questionamentos direcionados , isto é, fazendo-se “perguntas abertas”, “perguntas focadas” e “perguntas fechadas”. As perguntas abertas são aquelas mais generalizadas, as fechadas são sobre um assunto específico, e as perguntas fechadas são mais diretas, para se coletar dados que não foram captados através das anteriores.
Através desse estudo, inicia-se o conhecimento do sujeito com quem estamos lidando, porque idar com o indivíduo sem antes conhecê-lo e à sua cultura, hábitos, costumes, atitudes, tradição, etc., é impossível. Esse conhecimento, ao longo de um tratamento, deverá expandir-se consideravelmente, tornando-o cada vez mais eficaz.
Para que se ofereça qualquer tipo de atenção, é necessário saber quem é aquele sujeito, e investigar sua condição humana, uma vez que, segundo Hannah Arendt (2001), a condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de existência.
Se o indivíduo é condicionado, é primordial levar em conta todos os fatores que o cercam e que sobre ele possam ter agido, ou estar agindo, de forma a influenciar seu modo de ser, agir e pensar.
Os atos praticados, o discursos, os projetos e desejos (ou a ausência destes), são frutos do meio, costumes e hábitos individuais e coletivos. As conseqüências decorridas desse contexto, também resultarão da influência sofrida pelo meio.
O indivíduo presente em uma sociedade trará suas marcas e seguirá seus caminhos. Como ser livre, poderá fazer escolhas, mas suas escolhas também estarão sendo influenciadas pela sua cultura.
Assim, em uma mesma sociedade, sempre haverá o “certo” e o “errado”, segundo o julgamento dos indivíduos dela própria, e o homem, muitas vezes sem se dar conta de que só ele poderá um dia mudar aquilo que foi criado por ele mesmo, poderá seguir por trilhas que lhe parecem extremamente prejudiciais, mas que ainda assim serão seguidas, uma vez que estão ali, daquele mesmo jeito, há tanto tempo.
O ser humano muitas vezes perde a fé e a esperança em sua própria espécie, por acreditar que as coisas têm que ser desse modo, porque desse modo sempre foram.
E, após os homens terem feito as suas próprias escolhas dentro de uma mesma sociedade, surgem as diferenças entre eles em seu próprio meio, transformando-os em “melhores” e “piores”, segundo a sua própria sentença.
Segundo Montaigne (1533-1572), cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. Um exemplo disso são os sacrifícios até hoje praticados na Índia, onde, quando pequenas oferendas ao Rio Ganges, como animais e comida não “resolvem” um problema, oferece-se uma criança. Nos templos, aos deuses, os sacrifícios com morte são praticados com carneiros ao invés de pessoas, mas seres humanos ainda são oferecidos como escravos.
Assim, o olhar do homem sobre o homem deve ser sempre sob o prisma cultural do indivíduo observado, despindo-se o observador de sua própria, respeitando-se as particularidades e as diferenças, pois só assim poderá haver um pouco mais de compreensão entre os homens.
Despir-se de sua própria cultura não significa aqui abrir mão de tudo o que foi apreendido na vida em prol de outrem, e sim colocar-se em posição de empatia com este. “Empatia” origina-se do termo grego empátheia, que significa entrar no sentimento. Portanto, a primeira condição para sermos empáticos é sermos receptivos aos outros. Isto significa estar disposto a conhecer tanto os outros como a si mesmo. A empatia ajuda-nos a libertarmo-nos dos nossos padrões rígidos e repetitivos (culturais), pois só assim poderemos compreender melhor o outro indivíduo, com todas as suas particularidades, subjetividade e idiossincrasia.
BIBLIOGRAFIA
• LARAIA, Roque de Barros – Cultura: um conceito antropológico. 11ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997
• PRADO, Luiz Carlos – O SER TERAPEUTA, Gráfica UFRGS, 2002
• ARENDT, Hannah – A CONDIÇÃO HUMANA, Ed. Forense Universitária, 10ª ed., 2001
• Wikipedia

Nenhum comentário:
Postar um comentário