Por Carlos Llano Cifuentes
(baseado em ACEPRENSA, 117/91)
Ainda que ninguém proponha o consumismo como doutrina, é o estilo de vida que mais influencia. Não há outro ismo que conte com menos ideólogos e mais adeptos, satisfeitos ou frustados. No entanto, poucos reconhecerão ter incorrido nesta hipertrofia do consumo. Para o autor deste artigo1, o primeiro passo para superar a tentação consumista é saber o que é o supérfluo em cada caso e como ele afeta o ser profundo do homem.
A antropologia filosófica afirma genericamente, desde a remota antigüidade, a existência de necessidades naturais (aquelas que o homem requer como tal) e necessidades acrescentadas (isto é, supérfluas), que o homem imagina necessitar, mas com uma necessidade fingida. Isto é o que se denomina por criar necessidades.
Movidos hoje decisivamente pelo impulso de satisfazer tais necessidades acrescentadas, inclusive com atrofia da satisfação das necessidades que nos são naturais, torna-se imperioso contar com uma pedra de toque para distinguir umas das outras.
UM GREGO, UM MEDIEVAL E MARX
Muitos pensadores de todos os tempos trataram de estabelecer a distinção entre os bens necessários e os bens supérfluos e fazer uma lista rigorosa dos primeiros, ainda que de uma forma pouco feliz. Tive a curiosidade de anotar as listas elaboradas por três filósofos de muito distintas épocas, origens e orientações: o grego Platão, o medieval Tomás de Aquino e o alemão Karl Marx.
Platão, em sua República (livro II), se propõe uma relação de bens necessários rigorosamente restritiva, e consegue esta sucinta enumeração: alimentação, habitação e vestuário. Mas, poucas linhas depois, arrepende-se das suas restrições e acrescenta uma quarta necessidade - a do calçado -, ao parecer esquecida, e a partir daí se vê impelido a acrescentar muitas outras.
Antonio Millán-Puelles, na sua Economía y Libertad diz-nos que a lista mais completa enunciada por Marx acerca das necessidades básicas do homem é a que se encontra no primeiro tomo de O Capital, da seguinte maneira: alimento, habitação, vestuário - no que coincide com a enumeração platônica -, aquecimento, etc. Com o seu bom humor andaluz, diz-nos Millán-Puelles que o leitor estranhará de imediato os elementos da lista: a calefação e o etc. Quando se trata, com efeito, de definir o necessário, não se pode deixar indeterminação em pontos suspensivos, porque estes abrem a porta ao supérfluo.
Pois bem: é curioso notar que a enumeração de Tomás de Aquino acerca dos bens necessários se identifica com a de Marx, até no etcétera, com duas peculiares ressalvas: a falta de calefação (era napolitano, não alemão) e em troca menciona, como um clarividente precursor do futuro, os veículos: a sua obesidade exigia, ao que parece, um burro.
QUANDO O SUPÉRFLUO SE GENERALIZA
Vê-se claramente que toda a relação de bens necessários se encontra tingida pelo subjetivismo: as irregulares ruas da antiga Grécia fazem pensar a Platão no calçado, como o frio da Alemanha do século XIX
1 Tradução do original Aceprensa 117/91
Carlos Llano Cifuentes é Reitor da Universidade Panamericana (México) e presidente do Conselho Superior do Instituto Panamericano de Alta Direção de Empresa (IPADE). O seu artigo apareceu originalmente na revista Istmo, n° 194.
incita Marx a acolher-se à lareira, e o seu próprio volume sugere a São Tomás o requerimento de um burro para deslocar-se.
Tampouco é válido considerar como necessários aqueles bens que se tenham generalizado em uma determinada etapa social. A generalização não os torna imprescindíveis; nem sequer convenientes. Basta ter em conta que em muitas sociedades, e na nossa também, chegaram a generalizar-se determinados vícios. Com razão, ainda que com certa agressividade, comentando o terceiro livro da Ética de Aristóteles, dizia Tomás de Aquino que não é por ter-se generalizado que o supérfluo adquire selo de autenticidade, como quando a generalização fosse feita por uma multitudo stultorum, que se teria que traduzir como bando de estúpidos.
A informática exacerbou em nós a atenção às estatísticas: para muitos, encontrar-se abaixo da média seria como contrair uma doença ou ser vítima de uma desgraça. Esta é, sem parecê-lo, uma das origens do consumismo: termina-se instalando uma antena parabólica pela única razão de que todos os vizinhos já a instalaram.
Igualmente, deve-se rechaçar a consideração de que o artificial torna-se por isso supérfluo. Há um modo artificial de satisfazer necessidades naturais, que se deve ao engenho do homem e que se constitui como parte importante das grandes civilizações. O mesmo Tomás de Aquino, que investe contra a generalização como critério de necessidade, diz-nos que a sociabilidade da cidade deriva de que com ela, vivendo agrupados, se alcançam artifícios benéficos que quem vivesse isolado nunca poderia encontrar.
O SEGREDO DE ARISTÓTELES
Que é, então, o que distingue o necessário do supérfluo? Antes de responder a esta questão, devemos fazer uma advertência e estabelecer uma hipótese. Advertimos que, na realidade, nos bens humanos não se estabelece uma divisão bipartida - necessários e supér-fluos - mas sim quádrupla: necessários, convenientes, supérfluos e nocivos. E a hipótese que me aventuro a propor é a de que os bens convenientes têm a tendência de tornar-se necessários e que os bens supérfluos tendem por fim a ser nocivos.
À luz do que foi dito já poderemos concluir que o necessário (e conveniente) não pode distinguir-se do supérfluo (e nocivo) mediante fórmulas gerais, sem fazer referência direta à pessoa que usa esses bens. A mesma droga que prejudica um morfinomaníaco beneficia um doente. Os bens são necessários (e convenientes) ou supérfluos (e nocivos) pela repercussão que têm em cada indivíduo que os possui, os usa ou os aproveita; quer dizer, pelos efeitos que produzem nele.
Aristóteles oferece-nos no primeiro livro da Ética a Nicómaco, um critério que poderia ter-se esquecido (hoje somos vítimas desse esquecimento) mas não superado: são bens necessários (e convenientes) aqueles que tornam exeqüível ao homem o exercício da virtude. Se este critério caiu no esquecimento, deve-se a que a palavra virtude perdeu a sua força, o qual constitui um dos paradoxos mais graves da nossa linguagem, pois o termo virtude significa isso mesmo que perdeu: força. O homem virtuoso é o que possui com força, com consistência, com nervo, aquilo mesmo que é ser homem, e o homem se define pelo seu espírito. Aristóteles identifica a virtude - ser mais homem - com a felicidade: “Chamamos felicidade ao desenvolvimento ou expansão da atividade do espírito”. Por isso mesmo os gregos não tinham mais do que uma palavra (areté) para expressar a virtude e o êxito: o êxito do homem consistia em sê-lo na máxima medida possível.
Serão bens necessários (e convenientes), pois, aqueles que ampliam a nossa capacidade de ser homem, no que consiste a felicidade que se pode alcançar nesta vida. Hoje, a voz ilustre de João Paulo II disse-o na Sollicitudo rei socialis: “os verdadeiros bens são os que abrem horizontes ao homem”.
SOBRIEDADE E VIRTUDE
O cristianismo sublinha e potencia o que a mente pagã de Aristóteles vislumbrara na sua Ética. Cada um saberá - é melhor que o saiba - se os bens que possui facilitam ou estorvam o crescimento do seu próprio ser homem, e conhecerá então qual é a linha que separa os bens que tem e utiliza como necessários ou como supérfluos; os que clareiam o seu panorama vital ou o enturvam.
Mas a sabedoria grega deu mais um passo: a carência de bens, o prescindir do supérfluo, contribui à virtude. Isto, que não é inteligível agora, já que a escassez nos parece intrinsecamente má, entendiam-no muito bem aqueles que constituem uma boa parte do nosso mais valioso patrimônio cultural. Assim o lemos em Heródoto: “A Grécia foi em todos os tempos um país pobre. Mas nisso se fundamenta a sua virtude. Chega a ela mediante o engenho e submissão a uma severa lei. Mediante ela se defende a Grécia da pobreza e da servidão”. Paradoxo hoje certamente ininteligível!: a pobreza gera em nós a força, e a força - não a abundância - nos defende da pobreza.
Fica todavia um ponto em suspenso. Muitos aceitarão com facilidade que os bens convenientes se nos transformem em necessários. Mas é muito possível que tenha obtido a repulsa de todos quando aventurei a hipótese de que os bens supérfluos têm a tendência de converterem-se em nocivos. Em que posso basear esta hipótese?
A ANGÚSTIA CONSUMISTA
Já o próprio conceito implica um fator pejorativo: supérfluo é o que sobra, o inútil, o que não é preciso ter. Este fator negativo implica de per si algo prejudicial: pois não é razoável - e portanto é irracional - ter o que sobra, conservar o que é inútil.
Mas esta consideração, obtida analiticamente do mesmo conceito do supérfluo, torna-se demasiado abstrata, e deveria por isso ser empiricamente constatada. Para isto, devemos distinguir entre superfluidade e riqueza; porque se bem que o supérfluo tenha um matiz claramente negativo, a riqueza possui um claramente positivo. As riquezas, inclusive materiais, podem servir sem dúvida de apoio instrumental à virtude: quem é bom, fará mais bem se tem recursos para fazê-lo. Mas, igualmente, as riquezas podem ser um estorvo que estreite o espírito humano, “na medida em que pela inquietude que geram, se impede a paz da alma”, disse com aguda expressão Tomás de Aquino. Há, pois, uma riqueza que serve para ampliar o raio de ação da virtude, e uma riqueza que a perturba. Hoje em dia está à flor da pele social esta inquietude que rompe o sossego da alma. Não se trata de uma afirmação anacrônica. Octavio Paz, na sua Pequena crônica de grandes dias diz-nos que “a tristeza e a angústia dos europeus e dos norte-americanos não vem da falta de comida mas sim da abundância de bens”.
A avareza, enquanto afã, angústia ou desejo enfermiço de acumulação de riquezas, transformou-se no afã, angústia ou desejo enfermiço do seu uso, substituindo uns bens por outros supostamente melhores, numa corrida atropelada que contraria a serenidade do espírito; mais ainda: que volta o espírito para fora na sua acelerada substituição. A hipótese diria que os bens que são de per si instrumento do espírito, se convertem naqueles que sobram quando semeiam a inquietude da sua acumulação ou da sua contínua substituição progressiva.
RIQUEZA GERADORA DE POBREZA
Mas, não é apenas a inquietude de espírito que gera em nós os bens supérfluos. Platão, no oitavo livro da República, adverte-nos que o excesso de bens materiais gera a decadência da alma. E dois mil quatrocentos anos depois, Mariano Grandona assegura-nos que “a prosperidade tornou-nos brandos”. É o que Daniel Bell chamou certeiramente “o beco sem saída” do Ocidente: o trabalho disciplinado e duro produziu uma prosperidade que nos impede já de seguir trabalhando, de modo que a prosperidade pode terminar em miséria. Pois se a virtude é força, fibra, vigor, e se os bens supérfluos não só nos inquietam, como também nos amolecem, atentarão nocivamente contra a vida interna do homem.
Então, o reter para si o supérfluo é uma opção grave: optar pela primazia das coisas que sobram, em detrimento das pessoas que as necessitam. Poderíamos concluir que o supérfluo de uns torna-se prejudicial ou nocivo àqueles que carecem do que, a outros, seus vizinhos, seus coetâneos, lhes está sobrando. Mas a conclusão ficaria incompleta. Porque, quem retém para si o supérfluo não prejudica somente a quem carece do necessário; prejudica-se sobretudo a si mesmo, já que impede o exercício da solidariedade, que é a virtude mais profundamente humana: o ser insolidário torna-se nocivo, já que longe de abrir o horizonte do homem, encerra-o em si mesmo e o empequenece. Talvez seja este o sentido que João Paulo II tenha querido dar em Durango (MÉXICO) à “riqueza geradora de pobreza”; pobreza material nos demais, mas também pobreza espiritual em si mesmo, enquanto homem.