Em uma tarde ensolarada de verão, estava com minha filha no centro de Santa Maria, tomando um suco natural quando me dei conta de como os copos e garrafas descartáveis nos mostram como vive atormentado o homem atual.
Trabalhei em um restaurante em Porto Alegre quando tinha 12 anos, nesta época em 1986 não era crime uma criança trabalhar como hoje é; prova disso que tinha carteira assinada.
Naquela época quando uma pessoa estava com sede, era obrigada a parar em algum lugar para saciá-la, pois não havia copos descartáveis muito menos garrafa Pet’s, assim sendo não tinha alternativa a não ser parar na frente do balcão e saborear a bebida preferida, acabava rolando um papo com o balconista dos mais variados que se possa imaginar, e o cérebro dessa pessoa se dava conta de que ela estava matando sua sede em um belo copo de vidro, sem se preocupar em não apertá-lo demais para não esmagá-lo e ainda era motivo de orgulho para o Joaquim, o irmão do dono, seu bar possuir o balcão e os copos mais limpos da Vila Jardim e Vila Ipiranga.
Bons tempos aqueles em que as necessidades humanas eram mais valorizadas, onde se parava o mundo por um copo de suco, de refri ou de água mineral, onde as pessoas davam o devido respeito ao seu corpo e suas necessidades, onde os bares tinham espaços para bons papos e paradas momentâneas, e que o mundo lá fora espere.
Hoje as pessoas passam correndo pela lancheria, o balconista nem olha o rosto do cliente, lhe entrega o copo descartável ou o Pet’s, e a pessoa sai em meio à multidão devorando o líquido, sem dar a oportunidade de seu corpo saber o que aconteceu. Não se saboreia o produto nem se mata a sede, simplesmente se devora o líquido enquanto caminha, e sua mente vaga pelos devaneios de uma sociedade atraída pelo consumismo e a pressa pra tudo, escravos do relógio.
E ainda nem falamos nos descartáveis, que só são bons para quem os produz, e o que dizer dos bueiros entupidos pela falta de consciência e educação nossa.
Você se lembra do prazer de parar para matar a sede em um belo e limpo copo de vidro que não se esmaga, sem se preocupar com o que se extraiu da natureza e para onde vai este lixo puramente comercial, e ainda dar a oportunidade de um balconista se orgulhar de um balcão impecável e um papo momentâneo enquanto sua mente avisa seu corpo que sua sede será saciada.
E o mundo lá fora que espere, pois estou com sede meu amigo balconista.

